Sobre o poder religioso.
Antes disso, uma pausa para uma anedota interessantíssima:
No dia anterior, 19 de setembro, meu mestre e eu fomos mandados embora da Sagrada Confraria, em São Paulo. Da mesma forma que fomos mandados embora da Sagrada Confraria, sucursal de Mogi das Cruzes, em janeiro de 2025, a confraria colonoide não admitiu o nosso jeito brasileiro de atuar como monges budistas. Dentro desse espaço, agimos em diferente frentes, de denúncia a suposto fato de racismo ocorrido nas dependências sacras, de denúncias a supostas irregularidades trabalhistas, de admoestação contra condutas imorais do ponto de vista budista. O problema que, quando admoestamos os leigos acerca de conduta contra os preceitos budistas, recebemos a represália da dispensa trabalhista. Ora, admoestar alguém do comando da Confraria Sagrada ou mesmo um monge ou uma monja desse agrupamento é uma ofensa lesa majestade. Fizemos o que acreditávamos que era certo e correto do ponto de vista budista. Sabíamos das consequências, mas não poderíamos recuar nos nossos votos. Declaramos, admoestamos e falamos do Dharma do Buda e fomos punidos pela dispensa. Não estar atrás de cabides de emprego, de comodidades, de falsa harmonia e omissões acerca de supostas ilegalidades pode nos custar caro no mundo mundano. Seguir, contudo, na confiança nos passos dos Budas e ancestrais pode ter esse sabor de deixar tudo para trás e arcar com as consequências.
Diante desse quadro, podemos observar a origem do poder religioso. Ele se concentra, obviamente, nas mãos dos detentores do poder político-econômico das sagradas confrarias dessa natureza. Por mais malabarismos justificantes que os leigos se utilizem de que não poderiam interferir na atividade religiosa, monástica, quando a situação se coloca em uma contradição acentuada, o poder religioso dos leigos pode eliminar os corpos monásticos dos recintos sagrados de um templo. No dia a dia, de modo mais sutil e velado, o exercício de pequenos poderes religiosos por esses leigos são expressos. A saber (deveres impostos pelos colonos leigos dentro da casa cerimonial):
- dever de ser cordato;
- dever de não falar de problemas;
- dever de comunicar onde vamos e o que fazemos;
- dever de sorrir e concordar com qualquer assunto, inclusive de barbaridades;
- dever de manter a falsa harmonia;
- dever de ser demasiado agradecido por qualquer pequena generosidade, mesmo que imposta, sob pena de ser rotulado como ingrato;
- dever de ser japonês - qualquer coisa que isso signifique;
- dever de ser um monge japonês - igualmente, qualquer coisa que isso signifique; dever este destinado aos monges especificamente;
- dever de falar japonês;
- dever de não se incomodar quando se estão falando em japonês e há pessoas no local participantes da conversa que não entendem;
- dever de trabalhar além das horas estabelecidas por lei - porque faz parte da etiqueta nipo-colonial dar o sangue e se sacrificar pela empresa, caso contrário, será rotulado de preguiçoso, vagabundo, braço curto etc.
- dever de, se for brasileiro, amar o Japão e procurar ser japonês - o que quer que isso signifique. Trata-se de um certo milagre da transubstanciação ainda a ser descrito;
- dever de respeitar os mais velhos, ainda que eles estejam moral e eticamente errados;
- dever de não propor nada novo porque isso fere a tradição japonesa fundada na Era Meiji;
- dever de se acostumar com fatos contrários à lei;
- dever de acobertar ilicitudes em nome da harmonia social;
- dever de ser monge para não receber horas extras. Porque, por muito óbvio, segundo eles, monges de verdade não poderiam receber pelo trabalho fora de horário, já que deveriam mais é se sacrificar para a empreitada religiosa.
Essa lista pode ser observada a olhos atentos em um período de um dia. De um jeito ou de outro a forma dos elementos dessa lista pode mudar, tomar a aparência de novo, mas essencialmente expressam o poder religioso e moral em doses homeopáticas para manterem os corpos obedientes à suprema sabedoria do grupo colonial que está no Comando da Sagrada Confraria.
No próximo texto, apresentaremos outro elemento do poder religioso exercido pelo Comando da Sagrada Confraria: a tentativa de golpe contra o Emissário japonês para a América do Sul.
Shozan

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