domingo, 16 de novembro de 2025

Registros do debate acerca da desmoralização do zen no Brasil (I)

Autor 01 (Será mantido o anonimato porque a forma do compartilhamento da publicação está como personalizado; há também um vídeo que acompanha a postagem).

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Foi vendido pelo Zen no Brasil, a ideia de que os monges poderiam "viver do Zen". Acreditou-se nesta possibilidade por muito tempo, fazendo com que praticantes leigos e monásticos principalmente deixassem inclusive suas profissões e estudos (sou testemunha de alguns desses), para dedicar-se a uma empresa específica – gosto de titular como empresas pois foi isso mesmo que algumas comunidades viraram - no intuito de fortalecer principalmente o poder e às vezes ganho financeiro - daquele professor/a.
Pois bem.
Não é o que aconteceu. O contexto das sanghas no Brasil é absurdamente diferente do Japão. Aqui os monásticos não são herdeiros de templos, que é o negócio da família, por centenas de anos às vezes, como no Japão. São culturas absurdamente diferentes, inclusive na compreensão da Dana. E estamos, como sociedade, cansados de sermos ENGANADOS.
Desconfio que ninguém que procurou o budismo no ocidente, procurou com intuito de colaborar com aumento de poder e ego ou ajudar “Mestres” a ganharem dinheiro, o que aconteceu muito pouco. Mas sim, sabemos que tem poucos monges que ganharam muito dinheiro vendendo o Dharma.
Precisamos, enquanto praticantes honestos, começar a questionar onde estamos, o que tem sido feito, o direcionamento que vem sendo tomado e sobretudo, COMO o Dharma vem sendo ensinado.
Há uma diferença gritante entre titulação e realização.
Porque vemos leigos fazendo trabalhos sociais e NADA em relação aos monásticos?
Porque a representação da Sotozen no Brasil não é aberta a brasileiros?
Porque há o silenciamento monástico e institucional sobre diversos assuntos e temas sociais de sofrimento humano que assolam o nosso país?
Porque não vemos nenhuma representatividade trabalhando com direitos humanos?
Porque há silêncio sobre abusos dentro da Ordem?
Porque o status quo vem sendo mantido, em detrimento do sofrimento humano?
Porque os leigos vêm sendo calados, amedrontados e desencorajados a falar?
São perguntas que precisam ser feitas. E cobradas as suas respostas.
Hoje recebi um vídeo triste, para não dizer DEPRIMENTE, de um “Mestre” tentando, de todas as formas, com ameaças “veladas” inclusive, manter o seu poder, mesmo sabendo do cometimento de condutas gravíssimas. Até quando?
Os mantos dão poder. E as lutas que estamos assistindo são de PODER, pura e simplesmente. Muito pouco sobre dinheiro. Mas tem o impacto financeiro também. As lutas para manter os status quo são sobre poder também, e status e títulos adquiridos.
Quer ser monástico no Brasil? Não venda NADA, pois Buda não vendeu nada.
Quer poder? Vai conseguir, desde que não acredite no Dharma.
Quer ganhar dinheiro? Não vista o manto. É simples.
Quer viver do Dharma? Difícil, sem cair em contradição. É espiritualmente mais honesto seguir sua profissão, seja ela qual for e, NAS HORAS VAGAS, seja monástico. Ajude as pessoas como os leigos têm ajudado. Entre em escolas públicas. Vá às ruas distribuir comida. Vá às cadeias. Vá a abrigos e asilos. O que não falta no mundo são pessoas precisando serem ajudadas. Saiam do casulo fantasioso das sanghas.
E parem com essa manipulação de “todos os seres”. Estão excluindo e prejudicando aos milhares.
Cobraremos a Sotoshu até nos responderem.
Bom dia. Resposta do Shozan ao post: Monge Shōzan Suzuki: Palavras e ações que precisamos levar adiante. Antes um sentimento de mal-estar, hoje uma consciência advinda do debate público acerca corrupção moral do zen no Brasil.
"Aqui é Brasil", para um bom entendedor já diz tudo. A formulação chinesa budista de que "se não trabalhar, não se come" continua sendo verdade.
Não se trata de uma reclamação individual, uma mera insatisfação. Precisamos defender que existe algo mais adequado, mais correto, menos ganancioso.
Existem, sim, lados dessa história. É preciso dizer que estamos e queremos estar no lado dos pequenos e invisíveis praticantes que querem apenas praticar em paz, manter nossas comunidades no espírito de um dia de cada vez. Com dignidade, com responsabilidade.
Ocorre que, ao nosso lado, avançam livremente máquinas de guerra corrompidas por dentro e por fora que, literalmente, abocanham os incautos. Não apenas isso, levantam a bandeira de que representam todo o zen brasileiro e existe apenas um tipo de Dharma: o do Capital.
Em verdade, quando relatamos nossas experiências, identificamos esses traços nos lugares em que passamos.

No entanto, ao recebermos depoimentos de praticantes de outras comunidades, percebemos que faz parte de uma lógica exploratória adotada por determinados grupos. A face irada budista só é mostrada quando o Dharma é corrompido.
Em reverência.

domingo, 28 de setembro de 2025

As raízes do anti-budismo dos descendentes de colonos japoneses (III)



Até o presente momento, as confrarias zen de origem da colônia dos imigrantes japoneses foram estabelecidos com a posse do poder político e econômico nas mãos dos representantes desses colonos (colonóides) e, até os dias de hoje, decorrentes de sua hereditariedade. 

Essa forma manteve-se, então, intacta por décadas. Possivelmente, e seria preciso investigar outrora, com o complô para expulsão da Monja Coen da Sagrada Confraria, há duas décadas, houve a composição do gênero feminino no Comando da Sagrada Confraria. Ou seja, a Monja Coen  possivelmente criticou a preponderância masculina no Comando Sacro e isso fez com que as próximas gerações fossem de Comandantes femininas.
No ano de 2022, o Emissário japonês assumiu a função central da Sagrada Confraria, após esse lugar passar alguns anos sem a figura de um emissário, apenas contando com o atendente Judas. Tempos depois, em 2024, sob a alegação de que não trabalhava, não exercendo suas funções como Emissário, então, o Comando da Confraria Sagrada arquitetou um golpe para expulsar o Emissário e, assim, purificando a Confraria Sagrada desse mal. Houve supostas falsificações no processo de tradução dos documentos do português para o japonês para enviar a sede da Ordem, suposta indução para que os membros da Confraria assinassem um documento que exigia a sua saída, entre outras construções. Paralelamente, sob a condução do atendente Judas, outros monges representantes da América do Sul também articularam um suposto golpe para retirá-lo das funções de Emissário.

Por várias razões e também por razões que desconheço, o suposto golpe não teve sucesso. A Ordem japonesa negou o referendo. Vale ressaltar que as regras da Confraria Sagrada permitiam ao Comando expulsar o Emissário. Cláusula semelhante encontra-se nas atuais regras da sucursal de Mogi das Cruzes.
Quando contamos essa história, precisamos perguntar o motivo budista que há por trás disso tudo.

Frente ao poder político dos colonóides que ocupam o Comando, o atual Emissário fora quase deposto. E por qual motivo? O motivo oficial seria de que ele não exercia suas funções. Precisaríamos perguntar aos colonóides que vestem a camisa do budismo por força da tradição, qual o ideal do monge budista da qual eles podem, com orgulho, defender.
Para os colonóides, a função do Emissário é fazer todas as cerimônias memoriais, funerais e limpar o chão do espaço sagrado da Confraria. Caso ele não faça isso, não trabalha. Não exerce, segundo os óculos budistas dos colonoides, a prática e realização dos ensinamentos de Buda. 
Em outros termos, caso o Emissário não realize cerimônias memoriais, funerais e limpeza do chão sagrado, não estaria ganhando para a missão Sagrada da Confaria, ou seja, disponibilizando para o mercado funerário, seus serviços rentáveis. Se não vende a mercadoria cultural, a Confraria não ganha e se não dá dinheiro, não tem valor. Num outro giro, para os colonoides, só tem valor se vender cerimônias, funerais e limpar o chão (para receber as famílias solicitantes), pois limpando, economiza-se na contratação de profissionais da limpeza. Em resumo, se não dá dinheiro, não é trabalho digno de um monge.

Essas linhas sintetizam a visão valor dada pelos colonoides acerca de um monge budista:

a) Funcionário do mês
Monge de grande valor: realiza cerimônias memorias, funerais e limpeza do solo sagrado.
Consequência econômica do trabalho: produz a mercadoria funerária.
Consequência econômica para a Confraria Sagrada: recebe o dinheiro pela mercadoria vendida.

Consequência mediata: mantém o poder econômico que sustenta o poder político que mantém os colonoides no Comando por mais tempo. Essa específica fonte de recursos sustenta a missão "sagrada" dos colonóides.


b) Mau funcionário 

Monge de baixo valor: não realiza cerimônias memoriais, funerais e limpeza do chão sagrado.

Consequência econômica do trabalho: não produz a mercadoria funerária.
Consequência econômica para a Confraria: não recebe dinheiro pela mercadoria vendida.

Consequência mediata: sem poder econômico, o agrupamento colonóide não se sustenta porque falhou em exercer o poder político para explorar o trabalho de um monge desavisado. Perde-se o motivo para os colonóides exercerem sua missão sacra.


A sustentação dessa estrutura política advém portanto da cultura tradicional (tradição recentíssima de meados do século XX a partir da fundação da Sagrada Confraria e sua sucursal) quando colonos e colonóides passaram a explorar o trabalho dos monges e, ao invés de receber os lucros da exploração, receberam o poder político para se manterem no Comando do empreendimento. Aos colonos e colonóides, recebem uma medalha social (status) de exercerem um trabalho sagrado que contribui com a difusão do budismo e auxílio aos necessitados. Sacrificam-se para manter a Confraria Sagrada, que para eles equivale ao Buda e ao Budismo; nem que para isso tenham que sujar suas mãos no lodo da exploração dos religiosos, dos monges budistas.

A medida anti-budista, assim, fundamenta-se na moral advinda da exploração da mão de obra, na clássica ideologia capitalista de defesa da efetividade, exploração, controle dos corpos. Todo o ambiente dentro da Confraria Sagrada que deveria preservar a moral budista ganha contornos capitalistas. Constantes assédios morais contra os monges e demais trabalhadores - o caso do Emissário é emblemático, contra ele, porém, não foi apenas assédio moral que o condenasse por "não trabalhar", porém uma suposta tentativa de golpe para sua remoção -, quando os monges estão em estado de vulnerabilidade socio-econômica, os colonóides profetizam contra eles dizendo que seria necessário ser mais forte, porque, segundo a mentalidade colonial, faz parte da atividade monástica se entregar a esse trabalho com todo louvor necessário. De tanto trabalho e tanta cobrança, incutem na mente dos monges em estado de vulnerabilidade que devem trabalhar, inclusive, nos dias de folga; normalizar horas extras e horas além das horas extraordinárias, tudo na argumentação de que monges "de verdade" deveriam trabalhar assim - aceitando a exploração como se fosse um ensinamento de Buda. 

Bem verdade é: os monges vulneráveis que sinceramente acreditam em Buda e de que a Confraria Sagrada tem orientações budistas são ludibriados por esses abusos morais com tons religiosos perpetrados pelos colonóides.

Aos trabalhadores que não são monges, a exploração é ilimitada.

Shozan




sábado, 20 de setembro de 2025

As raízes do anti-budismo dos descendentes de colonos japoneses (II)


 II

Sobre o poder religioso.

Antes disso, uma pausa para uma anedota interessantíssima:

No dia anterior, 19 de setembro, meu mestre e eu fomos mandados embora da Sagrada Confraria, em São Paulo. Da mesma forma que fomos mandados embora da Sagrada Confraria, sucursal de Mogi das Cruzes, em janeiro de 2025, a confraria colonoide  não admitiu o nosso jeito brasileiro de atuar como monges budistas. Dentro desse espaço, agimos em diferente frentes, de denúncia a suposto fato de racismo ocorrido nas dependências sacras, de denúncias a supostas irregularidades trabalhistas, de admoestação contra condutas imorais do ponto de vista budista. O problema que, quando admoestamos os leigos acerca de conduta contra os preceitos budistas, recebemos a represália da dispensa trabalhista. Ora, admoestar alguém do comando da Confraria Sagrada ou mesmo um monge ou uma monja desse agrupamento é uma ofensa lesa majestade. Fizemos o que acreditávamos que era certo e correto do ponto de vista budista. Sabíamos das consequências, mas não poderíamos recuar nos nossos votos. Declaramos, admoestamos e falamos do Dharma do Buda e fomos punidos pela dispensa. Não estar atrás de cabides de emprego, de comodidades, de falsa harmonia e omissões acerca de supostas ilegalidades pode nos custar caro no mundo mundano. Seguir, contudo, na confiança nos passos dos Budas e ancestrais pode ter esse sabor de deixar tudo para trás e arcar com as consequências. 

Diante desse quadro, podemos observar a origem do poder religioso. Ele se concentra, obviamente, nas mãos dos detentores do poder político-econômico das sagradas confrarias dessa natureza. Por mais malabarismos justificantes que os leigos se utilizem de que não poderiam interferir na atividade religiosa, monástica, quando a situação se coloca em uma contradição acentuada, o poder religioso dos leigos pode eliminar os corpos monásticos dos recintos sagrados de um templo. No dia a dia, de modo mais sutil e velado, o exercício de pequenos poderes religiosos por esses leigos são expressos. A saber (deveres impostos pelos colonos leigos dentro da casa cerimonial):

- dever de ser cordato;
- dever de não falar de problemas;
- dever de comunicar onde vamos e o que fazemos;
- dever de sorrir e concordar com qualquer assunto, inclusive de barbaridades;
- dever de manter a falsa harmonia;
- dever de ser demasiado agradecido por qualquer pequena generosidade, mesmo que imposta, sob pena de ser rotulado como ingrato; 
- dever de ser japonês - qualquer coisa que isso signifique; 
- dever de ser um monge japonês - igualmente, qualquer coisa que isso signifique; dever este destinado aos monges especificamente;
- dever de falar japonês; 
- dever de não se incomodar quando se estão falando em japonês e há pessoas no local participantes da conversa que não entendem; 
- dever de trabalhar além das horas estabelecidas por lei - porque faz parte da etiqueta nipo-colonial dar o sangue e se sacrificar pela empresa, caso contrário, será rotulado de preguiçoso, vagabundo, braço curto etc.
- dever de, se for brasileiro, amar o Japão e procurar ser japonês - o que quer que isso signifique. Trata-se de um certo milagre da transubstanciação ainda a ser descrito;
- dever de respeitar os mais velhos, ainda que eles estejam moral e eticamente errados;

- dever de não propor nada novo porque isso fere a tradição japonesa fundada na Era Meiji; 

- dever de se acostumar com fatos contrários à lei;

- dever de acobertar ilicitudes em nome da harmonia social;

- dever de ser monge para não receber horas extras. Porque, por muito óbvio, segundo eles, monges de verdade não poderiam receber pelo trabalho fora de horário, já que deveriam mais é se sacrificar para a empreitada religiosa.

Essa lista pode ser observada a olhos atentos em um período de um dia. De um jeito ou de outro a forma dos elementos dessa lista pode mudar, tomar a aparência de novo, mas essencialmente expressam o poder religioso e moral em doses homeopáticas para manterem os corpos obedientes à suprema sabedoria do grupo colonial que está no Comando da Sagrada Confraria.
No próximo texto, apresentaremos outro elemento do poder religioso exercido pelo Comando da Sagrada Confraria: a tentativa de golpe contra o Emissário japonês para a América do Sul.

Shozan






quinta-feira, 11 de setembro de 2025

As raízes do anti-budismo dos descendentes de colonos japoneses (I)


I

Neste nosso presente momento, continuam subsistindo os templos budistas zen que se originaram a partir dos colonos e descendentes de colonos japoneses.
A origem colonial desses lugares fizeram com que os monásticos do Japão fossem chamados para atender à religiosidade dos imigrantes japoneses no Brasil.
A que tipo de religiosidade? À monástica? Evidentemente que não. A religiosidade construída a partir da cultura das cerimônias memoriais (hoj
i).
Um dos serviços que os monges realizaram e realizam por força dessa cultura é o memorial (associado com funerais budistas). Não é, porém, a atividade principal da vida monástica, em outros termos, da religiosidade zen budista. Ocorre que essa atividade, em razão da cultura de memoriais do Japão, importada aqui para o Brasil, tornou-se a fonte econômica principal dos templos zen oriundos das colônias japonesas.

O cenário político-econômico desses templos assim podem ser sintetizados:

Poder político-diretor: descendentes dos colonos japoneses
Poder econômico: sobre a mercadoria memorial budista (funerais)

Todo poder político (diretor) de um templo zen de colonos japoneses são fundados na venda desse serviço memorial realizado pelos monges. No plano econômico, a direção do templo fica a cargo dos descendentes dos colonos (leigos para a religião); o trabalhador/funcionário do templo é o monástico. 

Necessário, diante desse esquema, perguntar onde está o poder religioso.

Shozan



Registros do debate acerca da desmoralização do zen no Brasil (I)

Autor 01 (Será mantido o anonimato porque a forma do compartilhamento da publicação está como personalizado; há também um vídeo que acompanh...